MICROCRÉDITO TRANSFORMA REALIDADE DE EMPREENDEDOR DA PERIFERIA DE SP
Programa São Paulo Confia, administrado pela Secretaria Municipal do Trabalho, concedeu em dez meses mais de 11 mil empréstimos


O espírito empreendedor, a vontade de crescer e mudar a realidade pobre da periferia transformaram Severino, Gregória e Francisco em empresários de sucesso na região do Jardim Ângela, no extremo sul da cidade de São Paulo. Eles conquistaram a independência financeira por esforço próprio, dedicação e uma ‘maõzinha’ do Programa São Paulo Confia/Crédito Popular Solidário, uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), administrada pela Secretaria Municipal do Trabalho.

Nos primeiros dez meses deste ano, de janeiro a outubro, o São Paulo Confia já concedeu 11.239 empréstimos, num total de R$ 10.823.266,34. O crédito vai principalmente para pessoas de baixa renda que não conseguem acessar o sistema bancário tradicional porque têm restrições cadastrais, por exemplo, o nome consta no SPC ou Serasa, falta de comprovante de renda e não oferecem garantias de pagamento. Este ano, o valor médio dos empréstimos concedidos foi de R$ 963,01.

É o caso do seu Severino Luiz de Souza, que depois de trabalhar 28 anos como pedreiro, aos 70 anos resolveu montar seu próprio negócio. "Quando percebi que ninguém dava emprego para velho, juntei minhas economias e montei uma papelaria", diz Severino, que já pediu seis empréstimos. O último, no valor de R$ 600, foi solicitado no mês passado.

“Esse dinheiro não é para comprar feijão e nem farinha. É para investir no negócio. Não gosto de pegar dinheiro em banco porque é muito complicado e os juros são muito altos”, afirma. Ao lado da mulher Josefa de Miranda Souza, de 57 anos, Severino comanda com bom humor e espírito empreendedor a Papelaria Miranda, no bairro do Jardim Ângela, na Zona Sul.

Batalhador, Severino nasceu em Umbuzeiro, na Paraíba, e veio com a família para São Paulo em 1988. Casado, pai de seis filhos, ele orgulha-se de ter trabalhado como pedreiro na construção de Brasília (Distrito Federal). Agora ele quer a tão sonhada aposentadoria.Há três anos, ele entrou com processo na Justiça reivindicando o benefício. "O importante é que, por enquanto, consigo pagar as minhas contas", diz.

Já a cabeleireira Gregória Andrade de Castro, também do Jardim Ângela, saiu do aluguel, comprou sua casa própria e lá montou o salão de beleza. Casada, com três filhos, Gregória já foi ajudante geral, balconista e cozinheira. Não troca a vida de empreendedora por nada. Chegou ao São Paulo Confia por meio das informações de uma amiga. Juntou-se a um grupo e conseguiu, no final do ano passado, o seu primeiro empréstimo: R$ 250, gastos em produtos de beleza para o salão.

“Depois da compra dos produtos, minha clientela aumentou e consegui faturar mais”. Então ela voltou à entidade para conseguir R$ 600. “Aos poucos estou mudando a cara do salão, vou trocar os móveis e deixá-lo muito apresentável”, anuncia.

Gregória diz que foi muito fácil conseguir o dinheiro. No grupo, segundo ela, só tem gente honesta e trabalhadora, que honra os compromissos. “Se tiver alguém que não paga, é excluído imediatamente. Não podemos ficar arcando com os prejuízos”.Agora, para Gregória, o próximo passo agora é sair da informalidade.

Os empréstimos mudaram a vida do aposentado Francisco da Silva. Depois de sofrer um acidente como ajudante de pedreiro, ele aposentou-se com um salário mínimo. O pouco dinheiro não dava para pagar as despesas da casa e o transporte para que o filho estudasse. “Meu filho estava prestes a deixar a escola porque não tínhamos dinheiro para nada”.

Encontrou então as agentes do São Paulo Confia e decidiu revender bijuterias e lingerie, mas precisava de dinheiro para comprar as mercadorias. Seu primeiro empréstimo foi de R$ 200 e nunca mais parou de conseguir dinheiro. Cresceu e resolveu montar com uma sócia um sacolão e uma loja de produtos do Norte e Nordeste. Já está em seu sexto empréstimo. Francisco termina de pagar os últimos R$ 600 em janeiro. “Com o dinheiro do sacolão já consegui investir mais de R$ 5 mil na minha casinha. Estamos indo muito bem graças a esse programa do governo”.


O que é o programa

O São Paulo Confia é destinado a pessoas que tenham espírito empreendedor. Para participar, os interessados devem procurar uma das unidades com documento de identidade (RG), CPF, comprovante de residência e tem de provar que já tem um empreendimento (negócio informal gerador de renda e de emprego) há mais de seis meses. Não é preciso apresentar CNPJ e nem inscrição do empreendimento na prefeitura.

Não é possível conseguir o dinheiro sozinho. O empréstimo só é concedido para grupos formados por quatro a sete empreendedores, os chamados grupos solidários. Nesses grupos são reunidas pessoas de diversos ramos de atividades, que não podem ter qualquer tipo de parentesco. Eles se comprometem a garantir solidariamente, cada um, o pagamento do crédito concedido a todos os integrantes.

Na prática, o objetivo deste tipo de comprometimento é fazer com que cada empreendedor tenha responsabilidade, fiscalize e acompanhe o pagamento das prestações dos demais participantes do grupo, como se fosse uma espécie de fiador, sob pena de ter de arcar com o reembolso do valor total da prestação.

Uma vez formado o grupo, operadores de crédito da São Paulo Confia fazem um levantamento socioeconômico de cada um dos empreendedores e respectivos empreendimentos. Antes de conceder o empréstimo é preciso verificar o perfil, o faturamento e as condições com que os negócios são administrados. É proibido usar o dinheiro emprestado para fins pessoais, como pintar a casa, pagar dívidas ou fazer compras.

O crédito só é concedido se os participantes comprovarem que o dinheiro será utilizado para melhoria ou expansão do empreendimento. Vencida essa etapa, os operadores de crédito emitem os cheques em nomes dos participantes, cada um com o valor solicitado. No entanto, apenas um boleto de pagamento do empréstimo é emitido com o valor total da prestação do grupo.

Segundo a assessoria do São Paulo Confia, a maioria dos empréstimos concedidos nos últimos dez meses concentraram-se na zona leste de São Paulo (55%), seguida pela zona sul (27%). Na média, os homens (53%) tomaram mais empréstimos do que as mulheres (47%).


Inadimplência

A taxa de inadimplência é bem pequena. Em dezembro de 2004, a São Paulo Confia tinha uma inadimplência geral de 3,56% contra 3,10% registradas em novembro deste ano. Isso porque a São Paulo Confia adotou uma nova estratégia para incentivar os inadimplentes a quitarem os débitos e incentivar os novos empreendedores a pagarem as prestações em dia.

Ao vencer o contrato, a prefeitura oferece um novo empréstimo. Neste caso, será avaliada a pontualidade do pagamento das prestações do contrato anterior. Se o contrato foi pago rigorosamente em dia, a São Paulo Confia oferece um bônus de 30% do valor do crédito anterior para os empreendedores. A porcentagem do bônus depende da análise da pontualidade dos pagamentos.

A iniciativa deu tão certo que o sistema adotado pelo São Paulo Confia foi avaliado e aprovado por técnicos da Caixa Econômica Federal, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico-Social (BNDES) e da Secretaria Municipal de Finanças.

As condições do Programa São Paulo Confia são empréstimos no valor de R$ 50 a R$ 5 mil; taxa de juros de 3,9% ao mês; e taxa de Abertura de Crédito (TAC): 2,5%, diluída nas parcelas. Os tomadores de empréstimo podem fazer os pagamentos por semana ou quinzena e o prazo máximo para quitação é de nove meses. (Fonte: Sebrae)


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